sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

RC #26: NOSSA CONFISSÃO

por Ap. Jota Moura

O termo bíblico traduzido por confessar, tanto no hebraico (tôdhâ) como no grego(homologein), tem dupla conotação: confissão de fé e confissão de pecado. Por um lado, confissão significa declarar publicamente a própria relação e lealdade com Deus. Trata-se de uma entrega voluntária a Deus, na presença do mundo, mediante a qual um indivíduo ou uma congregação se ligam por lealdade a Deus na pessoa de Jesus Cristo. Portanto, é um compromisso de fé que pode ter eternas consequências escatológicas. Por outro lado, significa reconhecer a natureza humana pecaminosa e culpa à luz da revelação de Deus, sendo, por isso mesmo, um sinal externo do arrependimento e da fé em Cristo. No Antigo Testamento a confissão podia ser ou não seguida pelo perdão (Js 7.19; Lv 26.40; Sl 32.5). No Novo Testamento a confissão sempre pressupõe o arrependimento que leva ao perdão incondicional pela graça de Cristo (Mt 27.4; 1Jo 1.9).



  1. CONFISSÃO NO ANTIGO TESTAMENTO

No Antigo Testamento a confissão voluntária frequentemente se reveste do caráter de louvor, quando o israelita agradecido, declara o que Deus fez pela redenção de Israel ou pela sua própria alma. O substantivo hebraico (tôdhâ) pode significar confissão, agradecimento, louvor ou até mesmo ser usado para significar um grupo de pessoas que entoam hinos de louvor. O reconhecimento dos poderosos atos de Deus, nos quais Ele mostra Sua misericórdia ou poder de livrar está consequentemente ligado com a confissão e forma uma parte integral da oração e da adoração autêntica (Gn 3.9-11; 1Rs 8.35; 2Cr 6.26; Ne 1.4-11; 9; Jó 33.26-28; Salmos 22, 32, 51, 116; Dn 9). A confissão voluntária pode levar o fiel a reconsagrar-se a Deus, a entoar-Lhe hinos de louvor, a oferecer-Lhe sacrifício de regozijo, e infunde o desejo de falar aos outros sobre a misericórdia de Deus identificando-se com outros na adoração ao Senhor.



  1. CONFISSÃO NO NOVO TESTAMENTO

No Novo Testamento, o vocábulo grego traduzido por confessar, tem o sentido genérico de reconhecer algo, em concordância com outros, empregado para referir-se à fé em Cristo. Inclui em si os aspectos de agradecimento e louvor voluntários do Antigo Testamento, além do aspecto novo de submissão espontânea ao Governo de Deus (Mt 11.25; Rm 15.9; Hb 13.15). No entanto, significa mais do que simplesmente assentimento mental. Pois subentende uma decisão de comprometer-se a ser leal a Jesus Cristo como seu Senhor, em resposta à operação interna do Espírito Santo.

Confessar a Jesus Cristo, portanto, é reconhecê-Lo como o Messias Ungido de Deus (Mt 16.16; Mc 8.29; Jo 1.41; 9.22), como o Filho de Deus (Mt 8.29; Jo 1.34, 49; 1 Jo 4.2; 2 Jo 7), e também como Senhor ressurreto dentre os mortos (Rm 10.9; 1 Co 12.3; Fp 2.11).

A confissão de Jesus Cristo está intimamente ligada com a confissão voluntária de pecado. Pois confessar a Cristo é declarar que Ele morreu por nossos pecados e buscar em Cristo o perdão gracioso (1 Jo 1.5-10).  João Batista conclamava o povo a confessar a Deus seus pecados, sendo também a confissão um elemento constante tanto no ministério de nosso Senhor como dos apóstolos (Mt 3.6; 6.12; Lc 5.8; 15.21; 18.13; 19.8; Jo 20.23; Tg 5.16).



  1. CONFISSÃO E CURA

A confissão de fé em Jesus deve ser feita abertamente diante de todos os seres humanos (Mt 10.32; Lc 12.8; 1 Tm 6.12), por palavra proferida (Rm 10.9; Fl 2.11) e mesmo quando for difícil (Mt 10.32-39; Jo 9.22; 12.42).  A confissão voluntária de pecado, semelhantemente, é endereçada primariamente a Deus. No caso de pecado contra o próximo, deve haver busca de perdão e reconciliação com quem houve a ofensa. (Mt 18.15-19). Pode haver também confissão pública voluntária pelo poder do Espírito Santo (At 19.18) e confissão a pessoas maduras para liberação de perdão e cura (Tg 5.16), contanto que isso sirva sempre para edificação e restauração (Ef 5.12; Gl 6.1,2). O verdadeiro arrependimento pode requerer o reconhecimento da culpa perante um irmão (Mt 5.23,24), porém, nenhuma sugestão existe nas Escrituras que devamos fazer confissão compulsória para quem quer que seja, particular ou publicamente. Isso seria, a instauração da “santa inquisição” outrora praticada pela Igreja Católica.



  1. AGENTE DA CONFISSÃO

Tanto a confissão sobre Jesus Cristo como a confissão de pecados é obra exclusiva do Espírito Santo (Jo 16.7-11), assim sendo a marca da verdadeira Igreja, o Corpo de Cristo (Mt 10.20; 16.16-19; 1 Co 12.3). Por esse motivo precede o batismo cristão (At 8.37; 10.44-48), prática essa que deu origem a alguns dos primeiros credos e confissões de fé da Igreja, os quais adquiriram significação ainda maior com o surgimento do erro e das doutrinas falsas (1 Jo 4.2; 2 Jo 7).



  1. CONFISSÃO FINAL

O padrão perfeito de confissão nos é fornecido pelo próprio Senhor Jesus, que fez boa confissão perante Pôncio Pilatos (1 Tm 6.12,13). Ele confessou que era o Cristo – Ungido (Mc 14.62), e que é o Rei (Jo 18.36). Sua confissão foi feita perante os homens, contradizendo o testemunho falso de Seus próprios discípulos (Mc 14.68), e isso muito Lhe custou, pois teve consequências eternas para toda a humanidade. A Igreja, em sua confissão, identifica-se, perante muitas testemunhas, com a boa confissão de Seu Senhor crucificado, mas ressurreto Salvador. A confissão da Igreja (de fé e de pecado) é um sinal de que a velha natureza está morta com Cristo e que é possuída por seu Senhor, a Quem a Igreja tem a missão de servir.

Um dia Cristo confessará perante o Pai, como Seus todos aqueles que agora O confessam, mas também negará aqueles que agora O negam (Mt 10.32,33; Lc 12.8; 2 Tm 2.11-13).  A confissão com a boca é feita tendo em vista a salvação eterna (Rm 10.9,10,13; 2 Tm 2.11-13; 2 Co 4.14,14); e nossas confissões atuais são apenas uma amostra da confissão que a Igreja fará no último dia, quando todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai (Fp 2.11; Ap 4.11; 5.12; 7.10).

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